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93% na defesa da inteligência artificial

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93% das pessoas são mais produtivas com a automação do escritório, mas por que, 9 anos depois, ainda se discute inteligência artificial?

Em todo evento de que participo, ouço isto: como a inteligência artificial pode se sua aliada. E eu me pergunto por que isto ainda parece tão revolucionário. Em 2011, quando cursava a segunda fase da graduação em Direito, tive meu primeiro contato com o tema dentro da área do Direito. E fui automaticamente conduzida a trabalhar com os riscos da inteligência artificial na advocacia. Citei, como amante da literatura e do Direito, as leis da robótica de Isaac Azimov e trabalhei com ideias que pareciam absurdas mesmo àquela época. Minha expectativa era de ver olhos brilhando, mas como você verá, fui enganada por minha própria visão míope.

Eu queria ver a paixão, a curiosidade, o choque dos meus colegas. Contudo, como já adiantei, não foi a minha apresentação que encantou a sala. Eu era apenas uma pessoa falando de uma utopia durante eternos minutos da aula, enquanto meus colegas queriam praticidade. Eles queriam coisas tangíveis e não reflexões do que podia ou não acontecer – e do que sequer podemos saber se acontecerá.

Meu erro ficou claro quando conheci o mundo de um software jurídico com inteligência artificial. E foi então que descobri que eu poderia ter encantado meu público, sim, e sem deixar minhas reflexões de lado. Porque, diferentemente daquilo em que até eu mesma acreditava, a inteligência artificial já estava ali.

Claro, a inteligência artificial ainda não é onipotente, tampouco onipresente. Entretanto, ela já está aqui. Está em plataformas, eletrodomésticos, veículos. Está na gestão de escritórios de advocacia. Está nessa rede invisível que opera junto e sobre nós, ainda que tentemos fugir.

Eu digo, então, sem juízo de valor: não há como fugir. E quando não temos como combater, devemos mudar a nossa estratégia. Acredito que as 93% de pessoas que viram aumento de produtividade com um software jurídico, conforme pesquisa realizada pelo SAJ ADV, concordam comigo.

A ascensão dos robôs: de onde vem a inteligência artificial

“Se o conhecimento fosse perigoso, a solução seria a ignorância”. No entanto, eu, assim como Isaac Azimov, sempre acreditei que a solução deveria se parecer mais com a sabedoria. O perigo, de fato, não advém do conhecimento por si, mas do uso que a humanidade dá ou não a ele. E por essa perspectiva, portanto, seria uma isenção de culpa entregar ao conhecimento o perigo, enquanto o perigo se encontra na própria humanidade.

Quando sistemas de inteligência artificial começaram a reproduzir conteúdos preconceituosos, todos repetiam em coro: “os perigos da IA”. A inteligência artificial, no entanto, não surge de uma partícula inesperada, um big bang não programado dos sistemas. Ela surge de mãos criativas. Primeiro vem a ideia, com base nas necessidades dos usuários, depois entra a programação, que desenvolve uma ferramenta capaz de analisar e produzir dados a partir de inputs iniciais. Então vem o processo de inserção de dados. E depois de tudo isso, ela começa a produzir por sua conta, seja na leitura e compreensão de intimações, na indicação de tarefas ou na sugestão de modelos.

Ela é construída, ainda que tenha o poder de continuar seu crescimento para além das mãos humanas; ela é alimentada com dados, e os dados somos nós. Dessa maneira, ela é como um espelho: reflete nossas próprias ambições, medos e desejos.

Se os dados somos nós, e se a inteligência artificial decorre disso, por que teimamos em usá-la como uma extensão de nós mesmos? Quem nunca pensou em estar em dois lugares ao mesmo tempo ou fazer um dia durar 48h que atire a primeira pedra. Então, se pararmos de focar nos pensamentos negativos que temos da própria humanidade, encontraremos uma ferramenta que pode ser solução e não perigo.

O fim do trabalho mecânico na advocacia

Pegue uma folha, escreva seu nome. Cronometre. Pegue um editor de textos, digite seu nome. Cronometre. Pegue uma ferramenta com inteligência artificial que sugira seu nome. Cronometre. Qual sai vencedor? Alguns podem se decepcionar, porque a inteligência artificial precisa ser alimentada. Mas também o editor de texto precisa ser configurado e também um lápis precisa ser apontado. E você verá, salva bastante tempo da rotina utilizar a inteligência artificial como uma extensão do eu que trabalha, que atende clientes, faz peças processuais e ainda tem uma vida fora do escritório.

O problema é que quando se fala de inteligência artificial na advocacia, pensa-se apenas no grandioso, como eu pensei há 9 anos. Pensa-se em sofisticados sistemas de apresentação de teses jurídicas – que existem, mas também não são, ainda, viáveis para todos os profissionais -, pensa-se na substituição de uma das profissões mais humanas que poderiam existir. Afinal, advogados e advogadas lidam com pessoas mais do que lidam com casos. Eles lidam com aspirações, com o sucesso e a frustração. E por mais avançadas que as máquinas sejam, elas ainda não são humanas.

Minha pergunta, dessa maneira, é se esse medo não decorre da própria visão que se tem da advocacia. Um profissional que sente mecanizado, obviamente terá medo de que outra máquina o substitua. E não é de estranhar que esse medo se alastre diante de um mundo que exige cada vez mais dos advogados: devem saber argumentar bem, escrever bem, gerenciar o escritório bem, gerenciar as contas bem, dar palestras, ir a eventos, especializar-se, continuar estudando, atender mais clientes, ter uma família, ser fitness, conhecer outros lugares, e assim vai.

O tempo se esvai nesse processo. E o medo de que a máquina se torne humana transforma-se no medo de que o humano já seja uma máquina. A pessoa por trás de tudo isso se perde, quando a inteligência artificial poderia ser uma companheira. “Você me dá a mão? Eu continuo sendo a máquina, você continua sendo o ser humano. Eu sou a ferramenta que lerá suas intimações, enquanto você lê os livros. Eu cuidarei das suas tarefas, enquanto você cuida do seu lazer. Eu serei aquilo que você já não precisa ou quer fazer”.

Eu e você já passamos pelo lápis e papel, já passamos pelo editor de texto e agora chegamos a uma nova versão de nós mesmos: aquela mais produtiva e, ainda assim, mais humana. E por que não tentar essa tecnologia?


Athena Bastos, Mestra em Direito pelo PPGD/UFSC, na área de Teoria e História do Direito, e produtora de conteúdo do SAJ ADV - software jurídico.

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